Entre a metade do século XIX e
os primeiros anos do século XX, vários grupos de ajuda humanitária surgiram em
todo o mundo. Em torno deles, a polémica: “clubes de serviço” ou “sociedades
secretas”? Elks (1868), Rotary (1905), Kiwanis (1915) e Lions (1917) entraram em evidência. Foram
os precursores de uma nova modalidade de clube, onde, ao invés de lazer,
pagava-se para prestar serviço. Lá, os sócios reuniam-se semanalmente com o
objectivo de unir esforços e recursos financeiros provenientes de mensalidades
e doações a fim de financiar programas e projectos de ajuda a pessoas carentes
e comunidades necessitadas.
No entanto, para o Vaticano a “ajuda humanitária” era apenas uma fachada com o intuito de esconder a “verdadeira identidade”. As características comuns a estas organizações como “a composição, exclusivamente masculina, do quadro de membros efectivos” e o “método de ingresso dos novos sócios”, isto é, previamente seleccionados por uma comissão electiva, levantava suspeitas de que houvesse ligações intrínsecas entre os clubes e a maçonaria, lógica decorrente da semelhança dos costumes.
Segundo a reportagem “Worldy Rotary”, publicada no dia 22 de Janeiro de 1951 pela TIME-CNN, nos anos 1928 e 29, houve uma campanha internacional especificamente contra o Rotary. O protesto liderado pelo veículo impresso do Vaticano,
Relatos do jornalista Gilbert Keith Chesterton, cristão e influente
novelista inglês do início do século passado, apontam o início das oposições na
Espanha quando os Bispos de Almeria, Leon, Orense, Valência e Tuy
começaram a rotular a instituição de “nada mais do que uma organização satânica
com a mesma base e ensinos da maçonaria”.
As frequentes suspeitas levaram a Santa Sé a opor-se, incisivamente, à filiação, de
qualquer integrante de seu quadro eclesiástico, aos referidos clubes. Em 1929 a Igreja oficializa a
regra. Decreta a proibição da participação dos católicos nestas sociedades. Na
época, muitos sacerdotes preocupados com as implicações da norma, vão a Roma
tentar convencer as autoridades de que as instituições não eram maçónicas e que o movimento não entrava em conflito com os ensinamentos da Igreja.
Entretanto, a refutação fora estabelecida em forma de lei. O artigo 684 do
Código de Direito Canónico ditava a regra: “Os fiéis deverão fugir das associações secretas,
condenadas, sediciosas, suspeitas ou que procuram subtrair-se à legítima
vigilância da Igreja”. Por sua vez, o artigo 2336 prometia “a suspensão ou
privação de qualquer benefício, ofício, dignidade, pensão ou encargo que um
clérigo pudesse ter; assim como a privação da voz activa e passiva, além de outras penas, a todo aquele que desse seu nome à
seita maçónica ou
a outras “associações semelhantes’”. Para
os conservadores, não havia dúvida, Rotary e Lions enquadravam-se entre as
“associações semelhantes”. (1)
De facto, grande
parte dos membros eram adeptos da maçonaria, apesar disso Rotary e Lions sempre negaram qualquer vínculo com sociedades secretas. Recentemente, objectos confirmando as
suspeitas de que algumas lojas maçónicas eram compostas,
exclusivamente, por rotarios, vieram à tona. Um dos casos, é do Loja Rotária nº 4195 de Londres,
cujas correspondências destacavam carimbos da ong e os típicos compassos com a
letra ‘G’ em evidência, símbolo internacional do rito escocês.
De acordo com o jornalista e escritor C. R. Hewitt, a situação também acontecia
de forma inversa. Na sua obra intitulada Towards My Neighbour ele enfatiza: “Alguns clubes
rotários recrutavam somente maçons”,
porém o historiador Basil Lewis, ex-presidente do IGHFR (International
Genealogy and Heraldry Fellowship of Rotarians), diz que a administração ao
tomar conhecimento de casos isolados “enviou um comunicado obrigando todas as
instituições do clube a, também, admitirem não-maçons, caso contrário perderiam
as suas concessões”.
Actualmente, lojas maçónicas amplamente divulgadas na rede mundial destacam ambos os fundadores do
Rotary e do Lions, Paul Harris e Melvin Jones, respectivamente, como maçons.
Harris, porém, nega o fato. Numa carta datada de 19.09.1937,
escrita a mão e endereçada ao governador de um dos distritos da instituição,
Sr. Agripa Popsen, diz: “Eu nunca fui maçom, nem nunca tive qualquer
relacionamento directo ou indirecto com eles. Vou mais longe ainda, eu não sei nada sobre eles. Além disso,
o Rotary em nada é associado a maçonaria e nunca ouvi maçons influenciarem ou
terem sido influenciados pelo Rotary”.
Apesar das inúmeras ligações indirectas entre o nome de Paul
Harris e a maçonaria, como é o caso da ‘Loja maçónica Paul Harris’ a funcionar desde 1981 em São
Paulo , o advogado e escritor Dr. Oswaldo Pereira Rocha,
membro do Rotary Club, Grão-Mestre Adjunto do GOAM e Presidente do Instituto
Histórico da Maçonaria Maranhense declara: “Inexiste ligação ‘entre as três
entidades e a maçonaria’ em que pese trabalharem pelo bem da humanidade, assim
como qualquer tipo de conexão ritualista ou financeira”.
Durante este frenesi de especulações, o desenvolvimento dos clubes foi
criticamente afectado e diversos estabelecimentos foram desactivados. Neste período, pelo
menos três forças provocaram impactos negativos: A supressão fascista e o regime comunista totalitário, Hitler durante a segunda guerra
mundial, e a influência do Vaticano.
O FIM DA REPRESSÃO
O quadro repressivo começa a mostrar os primeiros sinais de mudança por volta
de 1933. A
Santa Sé lentamente aceita repensar a sua opinião. Na época, um grande
número de católicos influentes na sociedade frequentava os clubes, e a
instituição administrava ações de ajuda em aproximadamente 83 países,
conquistando, cada vez mais, amplo reconhecimento. A Igreja, pela primeira vez,
permite que padres frequentem e até se associem ao Rotary, usando da discrição. Todavia, em 1951 ela
volta atrás em sua decisão e o artigo 684 ganha força, outra vez.
Segundo Dom Zeno Hastenteusel, 60 anos, Bispo da Diocese de Novo Hamburgo-RS, o
assunto encerra-se
por completo “no dia 04 de Dezembro de 1965,
quando o Concílio Vaticano II aprova o documento Gaudium et Spes (alegria e
esperança) que, definitivamente, se posiciona favoravelmente a
todas as entidades filantrópicas e beneficentes”.
Somente após o colapso da Cortina de Ferro, é que os estabelecimentos desactivados durante a Segunda Guerra Mundial foram restabelecidos na Europa e em
1990, pela primeira vez são abertos clubes na Rússia e em outras antigas repúblicas.
Quirquistão, que fazia parte do território da ex. União Soviética, é a mais nova adição ao mundo rotário.
A oposição defendida pela igreja católica há quase 8 décadas atrás, acabou. No
lugar das antigas suspeitas existe o reconhecimento de que sem estes clubes
causas importantes à humanidade, como programas de combate a fome, protecção ao meio ambiente, prevenção à violência, fim do analfabetismo, combate
ao abuso de drogas e serviços de apoio à juventude e aos idosos ficariam
desamparadas.
E OS EVANGÉLICOS, O QUE PENSAM SOBRE ESTAS ORGANIZAÇÕES?
A maioria dos líderes evangélicos não tem opinião formada sobre a participação
de crentes em clubes de serviço, e na dúvida preferem responder com a pergunta:
“Mas, porque fazer parte de uma instituição destas?”. Quando há desconhecimento
de causa, o senso comum entra em campo e os questionamentos dos cristãos ficam
a mercê de sutis e desembaçadas associações com a maçonaria.
Afinal, a Igreja Evangélica permite a participação dos fiéis nestas organizações?
Associar-se a um clube é pecado? Se realmente há grande número de maçons nestas
ongs, o convívio pode causar algum prejuízo à vida espiritual do cristão? O que
os pastores pensam sobre a doação de recursos financeiros a estas entidades
filantrópicas? Existe parceria entre Rotary e a Igreja?
Carlenoel Zarro, 70 anos, é defensor público aposentado, cristão desde 1947,
membro da 1º igreja Batista de São Gonzalo-RJ e actuante no Rotary Club há 39
anos. Actualmente é 2º Vice-Presidente de clube, mas já participou de todos os demais
cargos da directoria, incluindo a presidência. Frente as indagações, ele responde “Para
mim não há qualquer empecilho quanto a participação de evangélicos
associando-se a respeitável instituição. Não há ponto de coincidência entre Igreja e Rotary. Trata-se de uma organização respeitada
internacionalmente que visa a prestação de relevantes serviços humanitários”.
O escritor e teólogo Dr. Russel Shedd compartilha da mesma opinião “não há
motivo para restrição ou proibição à participação de crentes no Rotary, se de
facto não forem encontradas ligações com organizações secretas, espiritismo ou
satanismo, que acredito, não há”. Quanto aos prejuízos a fé, ele declara
“seriam apenas em gastar tempo promovendo benefícios sociais sem implicações directas espirituais. Beneficiam a humanidade nesta vida sem se preocupar com a
vida vindoura”.
Já, para Zarro: “Não existe prejuízos, sob hipótese alguma. Se assim o
considerasse não teria permanecido como sócio até ao presente. Ouso afirmar que
os membros de uma igreja não se limitam, no seu dia a dia, somente em gastar
tempo de forma a promover benefícios sociais com implicações directas espirituais.”
Perguntado se a igreja tem muito a aprender com estas organizações quando o
assunto é “ajuda ao próximo” Shedd declara: “São instituições diferentes, porém
estar aquém na prática de boas obras vai ser sempre óbvio se esquecermos da
ordem bíblica que crentes tem responsabilidade primária com os da comunidade da
fé. A Igreja tem a obrigação de ajudar a família de Deus e evangelizar o mundo.
Gálatas 6:10 diz ‘Façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé’.
Pastor Silas Malafaia é intolerante quando ouve falar que há cristãos
associando estas instituições a maçonaria. “Coisa triste é ver um pastor
ignorante. Tem muitos pastores a falar do
que não sabem. Só o conhecimento nos livra deste mal, por isso é bom informar-se antes”. Ele prossegue “É lógico que nós abominamos sociedades secretas,
mas Rotary e Lions nada têm a ver com isso. São sociedades abertas,
instituições sérias, éticas e que desenvolvem trabalhos importantíssimos junto
a comunidade. Eu já palestrei nos seus encontros. Já fui convidado a
participar. Só não participo porque não tenho tempo. Se fosse Membro do clube, em absolutamente nada prejudicaria a nossa fé”.
Com relação aos lideres que se opõem as doações financeiras que seus membros possam fazer a estas instituições, ao invés de investirem em causas
sociais da igreja, Pastor Malafaia, rebate “Quando aquela mulher derramou um
nardo puro aos pés de Jesus, houve alguém que disse “este dinheiro poderia ser dado aos
pobres”, Jesus, porém disse: os pobres nós temos conosco. Parece que eu vejo a história repetir-se. Há gente que está sempre a colocar
empecilhos quando alguém toma uma iniciativa para realizar o bem ao ser humano.
Os dois maiores mandamentos da bíblia são ‘Amar a Deus e ao próximo como a si
mesmo’. Então, qualquer doação em direcção ao próximo é tremendamente espiritual e bíblica. Pastor não é dono do
dinheiro de membro nenhum. Minha linha doutrinária é o livre arbítrio. O membro
tem direito de investir onde ele quiser. Se o pastor está com medo de uma
instituição dessas
eu não sei o que ele está a fazer como pastor.”
Perguntado se há implicações no facto de haver grande número de
maçons dentro destas instituições, ele explica: “Paulo em I Coríntios 5 escreve:
‘Se vocês não quiserem comunicar-se com devassos, avarentos, roubadores ou
idólatras é melhor que saiam deste mundo’. A bíblia é muito mais inflexível em relação a amizade com aquele que diz ser cristão, e não é, do que com os
não cristãos. Está escrito ‘Não vos comuniqueis com aquele que dizendo ser
irmão, for devasso, avarento, idólatra, maldizente, beberrão ou ladrão; com esse tal nem sequer
comeis (I Co 5:11)’. Então, não é o ambiente que determina quem
nós somos,
Clubes
de serviço: Rotary e Lions
A consciencialização dos cristãos com relação as entidades filantrópicas e beneficentes precisa mudar. Rotary e Lions estão de portas abertas para ajudar a quem for preciso, incluindo igrejas evangélicas.
Orlando Oliveira, Procurador do Município, actualmente presidente do Rotary Club de Guaíba-RS, e membro da Igreja Assembleia de Deus desde 1964, confirma o apoio que vem obtendo da instituição: “Desde o ano de 2005 o Rotary Club Guaíba Cipreste tem se tornado parceiro doador na implantação e desenvolvimento do Musical ABC, colaborando com a restauração do prédio da Associação Comunitária onde funciona um dos núcleos do projecto e doando instrumentos, apoio este que, como Coordenador do Departamento de Música do Sector e Monitor do Projecto, entendo ser de importância singular, além de demonstrar que o Rotary efectivamente é um clube de serviço preocupado com o bem estar da comunidade, independentemente de credo religioso.” O projecto foi elaborado no ano de 2004 pelo Departamento de Música do Sector Bom Fim da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Guaíba-RS e desde então tem sido utilizado como meio de transmissão da vontade divina, através da linguagem universal da música, a comunidade
Mais de 250 pessoas entre crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos já participaram do Musical ABC e destes, 175 alunos receberam certificado de aproveitamento.
Didacticamente o projecto é dividido em três níveis: A, B e C. O Nível A compreendendo, em síntese, conhecimentos teóricos e iniciais de música, o Nível B na aplicação prática dos conhecimentos iniciais em flauta doce e o Nível C, dividido em vários sub níveis, consistindo no aprofundamento dos conhecimentos adquiridos nos Nível A e B praticado em instrumentos específicos.
As ajudas não param por aí. Os clubes de serviço mostraram a que fins vieram. Agora, é necessário a Igreja actualizar seus conhecimentos e opiniões.
ROTARY
O Rotary é uma rede mundial de voluntários dedicados à prestação de serviço social. Fundado por Paul Harris e três amigos em 23.02.1905, na cidade de Chicago, a instituição tem como lema “Dar de si antes de pensar em si”. Suas metas são “melhorar a qualidade de vida da humanidade reduzindo disparidades mundiais em áreas como educação, saúde, agricultura, tecnologia, saneamento, recursos hídricos e pequenos negócios”, assim como, promover a paz e a harmonia entre os povos. Actualmente, há mais de 1.216,000 membros, distribuídos em 32.613 clubes espalhados por 205 países e regiões.
ROTARY CLUBS
Não sectários e apolíticos, os Rotary Clubs são abertos a todas as raças, culturas e credos, e estão espalhados por diversas cidades do mundo. Homens, mulheres, jovens e adolescentes integram os diversos programas da ong. Para os jovens de
ROTARY INTERNACIONAL
O ROTARY INTERNACIONAL é a maior organização não governamental existente e a única com assento permanente na ONU. Em 1945 49 rotarios participaram da conferência
LIONS CLUB
A Associação Internacional Lions club foi fundada no dia 7 de Junho de 1917 em Chicago, Illinois, EUA, por Melvin Jones e um grupo de amigos que compunham o Business Circle of Chicago. Apesar de ter sido criado 12 anos após o Rotary, a Instituição cresceu, espantosamente, ultrapassando a marca dos 1,3 milhão de sócios, em aproximadamente 45.000 clubes localizados em 200 países e regiões.
Entre as principais preocupações do clube, está o atendimento aos cegos e aos deficientes visuais. Desde os anos 90, o clube investe pesado na sua campanha de conservação a visão, o SightFirst. O programa de US$ 143,5 milhões luta para livrar o mundo de problemas de cegueira evitáveis e reversíveis, apoiando serviços de atendimento médico aos extremamente necessitados.
Além dos programas de apoio a prevenção da cegueira, o Lions International tem o compromisso de oferecer serviços aos jovens além de melhorar o meio ambiente, construir casas para deficientes, apoiar a consciencialização acerca da diabetes, realizar programas auditivos e, por meio de sua fundação, oferecer auxílio às vítimas de catástrofes em todo o mundo.
OUTRAS INSTITUIÇÕES
Existem no mundo centenas de organizações de ajuda humanitária. Entre as que mais se destacam estão: Cruz Vermelha, Christian Action, Fundação Pan-Americana para o Desenvolvimento, Medical Bridges, Gifts in Kind International, Airline Ambassadors International, United Methodist Committee on Relief, Rotary Club e Lions Club. A maioria destes grupos passa despercebido pela população do planeta, pois trabalha em silêncio e não busca reconhecimento na mídia.
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